As Linhas Tortas de Deus: 6 perguntas de quem não entendeu o final do filme

O filme espanhol As Linhas Tortas de Deus (Los Renglones Torcidos de Dios) ainda repercute na cabeça dos espectadores da Netflix. O longa está chegou ao primeiro lugar no top 10 brasileiro de filmes mais assistidos na plataforma e atingiu a mesma posição no ranking global semanal de produções de língua não inglesa, com mais de 27 milhões de horas assistidas. Adaptado do romance homônimo do escritor espanhol Torcuato Luca de Tena (1923-1999), o suspense dirigido por Oriol Paulo (Durante a Tormenta) tem no elenco Bárbara Lennie (A Garota de Fogo), Pablo Derqui (Se Eu Não Tivesse te Conhecido), Eduard Fernández (Fausto 5.0), Loreto Mauleón (Pátria), entre outros.

Com mais de duas horas e meia de duração, As Linhas Tortas de Deus apresenta diversos momentos que plantam dúvidas na cabeça do público e até mesmo entre a crítica especializada. Para quem já assistiu e ficou confuso com certas passagens, acompanhe a seguir quais as questões que ficaram em aberto e suas possíveis explicações. Lembrando que os tópicos contêm spoilers da obra.

Enredo e personagens de As Linhas Tortas de Deus

Espanha, 1979. Após aceitar a investigação de um assassinato, a detetive particular Alice Gould (Bárbara Lennie) viaja até um hospital onde ocorreu um assassinato. Um filho de um magnata foi morto em circunstâncias misteriosas. Alice engana os médicos e psiquiatras ao dizer que é portadora de paranoia, mas sua permanência no local fica cada vez mais perigosa quando os profissionais realmente acreditam que sua sanidade mental é instável.

Além de Bárbara Lennie no papel principal, integram o elenco Pablo Derqui (Se Eu Não Tivesse te Conhecido) como o interno Ignacio Urquieta, amigo da detetive; Eduard Fernández (Fausto 5.0) como Samuel Alvar, o diretor do sanatório e principal entrave na investigação de Alice; David Selvas (Minas do Hóquei) como Heliodoro, marido de Alice; Loreto Mauleón (Pátria) como Montserrat Castell, vice-diretora da instituição; Javier Beltrán (Poucas Cinzas) como César Arellano, psiquiatra que simpatiza com Alice, entre outros.

Os irmãos Remo e Rômulo são filhos de Alicia?

Ao chegar no hospital, Alice (que tem nome de origem britânica) tem de ser chamada de “Alicia” para estar em igualdade com os demais internos, majoritariamente espanhóis. Ela conhece alguns dos internados do local, como o hidrofóbico Ignacio Urquieta (Pablo Derqui). O novo amigo de Alicia apresenta os irmãos gêmeos Rômulo e Reno (ambos interpretados por Samuel Soler). De acordo com Urquieta, os dois nasceram no hospital, filhos de pais oligofrênicos (portadores de retardo mental). Enquanto Rômulo é falante e costuma imitar as pessoas, Remo não fala e é protegido pelo irmão.

Além de Remo, Rômulo protege uma garota sem nome (Alba Jubany) a ponto de considerá-la sua irmã. De acordo com Ignacio, o rapaz mataria quem ousasse afirmar o contrário. Com base nessa afirmação, uma hipótese é que Alicia assume falsamente a “maternidade” dos irmãos após Rômulo dizer que a detetive é sua mãe em um encontro na floresta, pois tem medo da violência que o jovem poderia cometer caso fosse desacreditado. Rômulo mostrou ser agressivo ao matar o anão Luis Ojeda, apelidado de “Gnomo”, quando este tentou abusar de Alicia no meio da mata.

Uma outra opção é que Alicia os tenha adotado por afeto e uma possível vontade de ser mãe. Em uma de suas primeiras sessões com os médicos no hospital, a então detetive, quando perguntada sobre crianças em um jogo de correlações, diz a palavra frustração. Isso pode significar que ela não pode ser mãe ou não tenha conseguido ter filhos.

As cenas de flashback são mesmo do passado?

Em determinados atos do filme somos transportados para cenas de uma outra época, quando um incêndio ocorre no hospital, um dos pacientes é assassinado e seu possível homicida foge da instituição. Levamos a crer em um primeiro momento que esta situação narra o assassinato do filho do Dr. García del Olmo, que estava internado no sanatório e cuja morte é investigada por Alice. Ou seja, estas seriam cenas de flashback, pois narram um evento passado.

No entanto, o que na verdade ocorre é um flashfoward , recurso onde há uma quebra narrativa para mostrar fatos que ainda estão por vir. O que estas cenas antecipam na verdade é a fuga de Alice do manicômio e a desestabilização causada pelo seu plano, que envolveu um incêndio. A pessoa morta é, na verdade, o gêmeo Remo, confundido pelo “Homem-Elefante” (Francisco Javier Pastor) como sendo Rômulo, o assassino de seu amigo e protegido Gnomo. Este flashfoward confunde propositalmente o espectador, mas ao mesmo tempo o prepara para o desfecho onde Alice prova seus conhecimentos como detetive para solucionar o assassinato de Remo perante a polícia e os psiquiatras.

Por que o Dr. Samuel Alvar está contra Alicia?

À medida que Alicia tenta convencer os demais integrantes do corpo clínico do hospital de que é uma pessoa sã, o único que não deixa se convencer é o diretor e psiquiatra Samuel Alvar. Inicialmente, a detetive achava que o gestor estivesse a par do motivo pelo qual ela estaria no hospital, pois ela acreditava que o contratante Dr. García del Olmo teria repassado informações da investigação de Alice para ele. No entanto, após Alicia ser encontrada desacordada no meio da mata e considerada suspeita de assassinar Gnomo, Alvar demonstra preocupação com a história dita por ela na enfermaria e afirma desconhecer tudo o que ela diz.

A partir daí, Alvar é o principal recurso usado pela trama para mostrar do meio ao fim do filme que Alice não é quem ela diz ser. Como prova, o diretor narra todos os eventos que garantiram a estadia da agora suposta detetive no sanatório: desde as três tentativas de envenenamento que ela cometeu contra o próprio marido até a carta redigida pelo psiquiatra Dr. Donadío, cujo conteúdo Alice alega ser a criadora.

No entanto, há também provas suspeitas que coloca em dúvida o caráter de Samuel Alvar: sua obsessão em considerar Alice desequilibrada sem um novo laudo clínico, o interesse do diretor em atrasar as investigações do assassinato de Remo, seu suposto machismo quando é confrontado pela vice-diretora Montserrat Castell e, a prova mais flagrante, o valor superfaturado que o diretor recebeu pela internação da detetive das mãos de seu marido. Tal fato foi escondido dos demais membros do hospital, algo visto por Montserrat como um possível suborno para acobertar uma internação ilegal.

Quem é a pessoa que a Alicia achava que era o Dr. Del Olmo?

A detetive Alicia foi até o sanatório para investigar o assassinato do filho de Raimundo García del Olmo, apresentado como um empresário influente e pai de um jovem chamado Damien, morto de forma misteriosa no sanatório. Na versão de Alicia, García del Olmo a contratou para investigar o assassinato do filho dentro da prisão. Já para Samuel Alvar, a interna inventou a história com base em um suicídio ocorrido dentro do hospital e que teve repercussão na mídia.

Essa visão é tida como possivelmente verdadeira no momento em que Alicia é apresentada ao verdadeiro Dr. García del Olmo (Joan Crosas), que em nada se parece com o ator mostrado no começo do filme (Lluís Soler). Como o próprio diretor do filme reconhece que a morte de fato aconteceu no hospital, mas foi um suicídio e não um assassinato, uma hipótese é que o “verdadeiro” García del Olmo seja o pai do jovem suicida cuja morte estampou os jornais. Assim, os outros médicos o reconhecem justamente pelo personagem ser parente de um ex-interno.

Onde está o marido de Alicia?

Outro grande mistério da trama é a real índole de Heliodoro, marido de Alicia. Seria ele uma vítima das tentativas de envenenamento da esposa ou o arquiteto do plano para tomar posse da fortuna da ex-mulher? Enquanto a detetive afirma ter um casamento respeitoso com o marido, Alvar acredita na recomendação do Dr. Donadío, de que Heliodoro foi envenenado três vezes pela esposa. O diretor ainda supõe que ele possa estar morto, já que não atende as chamadas para averiguar a situação de Alicia.

No entanto, ao sofrer um eletrochoque, Alicia tem o esclarecimento de que a motivação para a sua perícia no sanatório tenha sido supostamente criada por Heliodoro, que confiou ao diretor do hospital um falso tratamento para Alicia de paranoia e narcisismo na base de manipulação psicológica. Duas situações que comprovariam essa alegação é o sumiço não explicado do dinheiro da conta de Alicia e a viagem de seu marido até o sul da Ásia com o valor supostamente roubado da ex-esposa, informações dadas na reunião extraordinária realizada pelo psiquiatras durante o final do filme.

Alicia consegue provar sua sanidade?

O espectador é confundido em diversos momentos para que haja dúvidas sobre a real sanidade de Alicia, por meio de argumentos que ora favorecem Samuel Alvar, ora Alicia. No momento final do filme, a detetive consegue sua liberação do sanatório em uma reunião do conselho de psiquiatras, que a julgam vítima de um sequestro legal. No entanto, nos minutos finais do filme, há mais uma nova reviravolta: o médico que atendeu Alicia, Dr. Donadío, aparece na reunião a convite de Alvar e fala diretamente com sua paciente. Na verdade, ele é quem Alicia reconhece como Dr. García del Olmo, o suposto pai de Damien e cliente da detetive. Em uma pergunta ambígua, Donadío questiona qual foi a nova confusão em que ela se meteu.

Em poucos segundos, o olhar distante de Alicia é movido para a câmera, em direção ao espectador. No que poderia ser considerado como uma sutil quebra da quarta parede, a protagonista transfere para o público o questionamento sobre sua real sanidade, antes dos créditos finais. O propósito da direção e do roteiro é fazer com que a obra não tenha uma resposta definitiva, deixando o final aberto para reflexões. Tal recurso narrativo é eventualmente usado no cinema, como em A Origem (2010), Blade Runner (1982), o brasileiro Aos Teus Olhos (2017) e A Ilha do Medo (2010), este último de enredo bastante similar ao longa espanhol.

Deixe um comentário